quarta-feira, 10 de abril de 2013

Cota para viver em paz

Descrente. Este é meu estado de espírito diante desta proliferação dos sistemas de cotas no mundo acadêmico. Meu lado Capitão Nascimento vem aflorando com o passar do tempo. Não é de hoje que encabeço ações em prol da igualdade de direitos e oportunidades para a grande maioria, mas as soluções apresentadas pelo governo são para inglês ver. Estão me chamando de idiota e não tenho nem para quem reclamar.

Sem querer criar polêmica, tenho direito a decretar meu manifesto de horror diante de decisões esdruxulas.

Educação é a base para formação de uma sociedade digna, investimento fundamental para o progresso de uma nação com resultados absolutamente inquestionáveis.

Neste quesito, o Brasil perde feio. Léguas de distância. Apesar de fazer parte do BRIC, a ficha dos nossos governantes ainda não caiu. Um povo sem conhecimento não vai para frente. Mais uma vez faço uso do princípio da insanidade “esperar resultados diferentes fazendo as mesmas coisas”.

Diferente das escolas de samba a educação no Brasil só não é pior por falta de espaço. Colégio público, num passado distante, era referência de ensino. Há muito tempo abandonaram esta imagem. Professores mal remunerados, instalações precárias, falta de verba e violência dentro da sala de aula. E para piorar, se é possível, ainda há a norma que proíbe o estudante repetir o ano.

Será que ninguém levantou a hipótese que em vez de dar cota nas universidades para negros e estudantes de escolas do estado seria mais lógico investir na qualidade do ensino público? Isso sim é discriminação. Das grandes.

Tenho honra da minha família e de meu círculo de amigos, uma boa parte composta por negros. Nunca vi algum deles se beneficiar ou reivindicar algum benefício por causa da cor. Ao contrário, meus primos são extremamente respeitados no mundo corporativo e acadêmico. Fizeram por merecer, exemplos para todos nós. Sem falar que cursaram escolas públicas.

Fico me perguntando como será a vida do professor da USP, UFRJ, UFSCAR, ESALQ, UNIFESP, UNICAMP? Na sala de aula diante de 50 alunos. Metade tem preparo para absorver a informação. Os outros 25 não tem noção do que ele está se matando para ensinar. Como a aula será nivelada? Por baixo, claro. Sem falar na mediocridade que invadirá o mercado de trabalho. Se hoje já vivemos um apagão de mão de obra, o futuro nos reserva momentos de horror.

Minha filha presta vestibular este ano. Vem se matando de estudar para conseguir entrar. Frequenta um colégio particular que custa o preço de um MBA.  Luxo que faço questão de manter, malabarismos a parte, ainda sou das antigas, educação é tudo na vida.

Difícil é explicar para a criatura que ela terá 50% menos chance de ingressar em uma universidade pública, afinal não é negra e nem estudou em colégio do estado.

Pensei agora no Plano B. Tiro a garota da escola e matriculo em escola pública. Invisto a grana da mensalidade escolar em sessões diárias de bronzeamento artificial.  Como ela já teve uma boa base de ensino, não vai escrever Trousse no lugar de Trouxe como na redação do ENEM que, diga-se de passagem, recebeu nota 10 e foi avaliada por dois professores.

Vou pleitear uma cota para viver em paz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário